Como me tornei bibliófila?

Não sei.

 


Eu realmente não sei, mas posso aventar possibilidades. Sempre que eu vejo aqueles vídeos bonitos na internet, ou até na TV, as pessoas têm um mentor, os pais, ou aquele professor que apresentou aquele livro que mudou sua vida e o fez um leitor voraz e apaixonado. Isso até acontece, e pode até acontecer com frequência. Mas não foi comigo. Na minha casa ninguém lia. Mas foi minha mãe que me alfabetizou. Por um motivo que eu realmente não me lembro, eu comecei a amontoar as letras em casa, com relativa facilidade. A minha primeira lembrança de alfabetização são as placas, nas ruas. Toda vez que eu saia eu lia tudo. Nome da loja, placa de sinalização, itinerário do ônibus, qualquer coisa que tivesse na rua. A segunda são as revistinhas da Turma da Mônica. A minha mãe não tinha grana pra comprar gibi para mim toda semana, mas sempre que sobrava algum ela comprava. Elas foram meus primeiros livros. E foi assim que eu entrei na escola um ano antes da idade normal (bons tempos). E ler era algo natural. Se eu sabia ler, tinha que fazer uso dessa ferramenta, não? Claro que a falta de internet fazia toda diferença. A TV não era suficiente para mim, por mais que eu amasse os desenhos. Mas eu amava ler tudo que podia. As revistas dos anos 80 da minha mãe. A Bíblia. Os gibis da Mônica. As apostilas da escola (quando a gente recebia as novas, eu lia de cabo a rabo, devorava), as revistinhas Nosso Amiguinho. Depois, os dicionários da casa da minha vó (me desfiz deles, e que arrependimento), as revistas Seleções da minha madrinha. As revistinhas de palavras cruzadas (não deixa de ser uma leitura). E, uma hora ou outra, os livros infantis da escola. a minha escola não tinha biblioteca, mas tinha alguns livrinhos. Eu me lembro de um que eu li com uns sete anos. Acho que tinha uma menina e um elefante. Eu lembro que eu adorei. Mas é só. Não lembro de mais nada...

A minha família não tinha grana (nem muita vontade) pra comprar livros. Mas, como falei, minha mãe, sempre que tinha um dinheirinho, comprava um gibi para mim. E assim eu me virava, na infância, com os livros da escola e o que minha família podia comprar. Mas é claro que o tempo passou. E o ponto de virada foi a oitava série (impressionante como a gente marca o tempo pelas séries da escola). Eu comecei a fazer um curso no centro, e finalmente comecei a andar de ônibus sozinha. Ao mesmo tempo, através da escola, olha só, ficamos sabendo dos sebos. Sebo pra mim era gordura. E aquilo era gordura sim. Gordura pra mente. Um mundo totalmente novo se abriu para mim com os sebos. Na verdade, dois mundos. Tendo mais independência para circular na minha gigantesca e badalada cidade, eu comecei a frequentar a biblioteca pública. Primeiro, pela Barsa (nem tão bons tempos), depois pelas revistas Superinteressante. Mas a virada, virada mesmo, tem nome e sobrenome. Dom Casmurro. Meu primeiríssimo livro de literatura adulta. Li com 13 para 14 anos. Odiei.

Mas isso não me desanimou. Ao contrário. Na minha cabeça não existia leitura ser algo ruim. Apesar de ser muito jovem, eu sabia por que não havia gostado do Dom. Se eu relesse hoje, certamente teria uma outra visão do livro. Mas não gostaria do mesmo jeito. E por um motivo mais simples do que parece. Eu não gosto de livros que têm como plot principal relações amorosas. Muito menos adultério. É questão de gosto pessoal meu. Só de pensar na Capitu (não sei e não quero saber se ela traiu, a única coisa que sei é que ela era uma cínica), me dá vontade de vomitar. Mas eu sabia que encontrar um livro que tocasse meu coração era só questão de tempo. É claro que eu estava certa (pelo menos nisso). Agora eu já estava no Ensino Médio. Em uma escola com biblioteca. Agora eu ia pra escola de ônibus. E isso significava uma coisa. Passe de estudante. Eventualmente, eu ia para a escola a pé, para economizar as fichinhas (como eu tô velha) e poder usar para ir na biblioteca pública a tarde. Fazer uma carteirinha de sócia e, consequentemente, descobrir que haviam duas prateleiras de Agatha Christie também foi questão de tempo.


To be continued...


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