Bebês e azulejos

Estou há uns vinte minutos tentando escrever. Meu marido acabou de ter um chilique com o computador. Este computador. Ele não sabe o que é tentar digitar com uma máquina que nem te responde mais. Na verdade, ele está bravo com a internet, que está uma droga. Só que eu não fiquei brigando com ele, como ele faz comigo. Porque ele pode ficar bravo, pensar e achar o que quiser e eu não?

É por essas e outras que eu não quero ter filhos. Só que... aconteceu um acidente. Na verdade, o acidente foi a minha burrice. Minha e dele. Se não fossemos burros o acidente não teria acontecido. Mas o fato é que aconteceu. E talvez eu esteja grávida. O primeiro dia foi horrível. Tomei pílula do dia seguinte pela primeira vez na vida, e sempre com a voz da professora de biologia do Ensino Médio na minha cabeça. Pra mim, pílula do dia seguinte é abortivo. Só que não é bem assim porque você não pode precisar o momento da concepção. Bom, o que importa é que, enquanto eu não posso ter certeza de nada, eu tenho que tentar esquecer. E ao mesmo tempo pensar no que eu farei se tiver um bebê. E até estou quase me acostumando com a ideia. O mais importante é fazer a P. compreender que ela nunca será isolada com um bebê nesta casa, ela será promovida a irmã mais velha. E que isso deve servir para nos aproximar. E que eu tenha capacidade para cuidar de uma criança. Isso é o que mais me assombra. Eu não consigo cuidar de mim mesma. Vejo como a melhor saída eu continuar assim, sozinha, para evitar mals maiores.

Meu marido acha que eu não gosto de crianças. Ele acha que eu dou mais valor aos outros animais do que aos seres humanos. E em determinados momentos dou mesmo. Afinal o bolsonaro surgiu no Homo sapiens, não no Felix catus. Mas é claro que eu dou valor às pessoas. E eu gosto de crianças sim, porra, eu trabalho em uma escola! Que tipo de pessoa ele acha que eu sou? É justamente por eu me preocupar com um serumaninho que eu não quero botar no mundo para sofrer que eu me preocupo tanto em ter filhos. Minhas filhas são minhas gatinhas, são meus animais. Hoje Aveia foi fazer vacina. Me arranhou.

De resto... meu avô está muito debilitado. E muito deprimido. Disse para minha mãe que prefere morrer do que fazer hemodiálise... sábado eu fui vê-lo. De longe. E ver meu padrinho e minha madrinha. Fazia sol. As pessoas estavam sentadas no quintal da minha mãe. Não senti vontade de chorar, mas ao mesmo tempo senti. O tempo é implacável. O tempo é uma espada, quanto mais avança mais te machuca. Meus pais não são mais tão jovens. Eu não sou mais tão jovem. A geração das crianças já cresceu. Vovó já partiu e vovô parece que cansou de vez de viver. Nessa hora as palavras me faltam para exprimir o que senti sentada na calçada, contra o muro, somente com a Pretinha ao meu lado e longe alguns metros dos demais. O tempo é implacável. A vida é implacável.

Compramos revestimentos para a parede do quarto. Se eu estiver grávida, é a parede onde ele vai dormir. Vou ter que trocar as canetas e livros das prateleiras por bichinhos e brinquedos...

Se eu não tiver, vou fazer uma estante para meus livros.


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