Vazio agudo
Minha terapia acabou. A terapeuta precisou se desligar da
clínica. Isso caiu como uma bomba me mim, me senti mal o resto da tarde. Claro que
eu compreendo que ela tem sua vida e seus motivos. Mas isso não impede de eu me
sentir um cocô. Há dez anos eu fazia terapia, e a terapeuta foi embora da
cidade. Depois, a profissional que passou a me atender fez a mesma coisa, por
motivos profissionais. No ano passado, eu também só pude ser atendida por cinco
meses. Agora, de novo. De novo e de novo e de novo. Será que eu nunca vou
conseguir fazer uma terapia decente? Será que sempre estou fadada a perder o profissional
que me atende? Foi minha terapeuta que me motivou a começar a escrever nesse
blog, e agora nem tenho tanta vontade de continuar. A despeito do período
proveitoso de terapia que tive, a terapia é um processo contínuo, e pra mim é
pior ainda, eu sou uma pessoa de difícil conversação. É necessário construir a
confiança entre o paciente e o profissional, e quando eu consigo finalmente
confiar na pessoa... acaba. É desanimador, é desalentador.
A covid tá pegando na minha cidade. Não há mais leito de
UTI. Mas meu tio está melhorando. Vovô também. A secretaria de educação proibiu
a abertura das escolas nas próximas duas semanas. O prefeito, decerto, está
esperando chegar um caminhão frigorífico na cidade para decretar o lockdonw. Meu
marido trabalha sem parar, atendendo gente mal educada o dia todo. A vida não é
justa.
Eu tinha pensado em mais coisas para escrever. Mas esqueci. Apagou-se
da minha cabeça hoje. Provavelmente tinha algo a ver com a burrice e a
hipocrisia do ser humano.
Essa era a semana do show da Taylor no Brasil...
Fiz compras on line para minha mãe hoje. Espero que ela
consiga fazer nas próximas vezes. Não quero que eles morram. O medo é sempre
uma sombra nas nossas vidas, não é mesmo? Na minha vida, pelo menos.
A impossibilidade de sair de casa por sair é um pouco
sufocante (ainda mais quando o único escape que você tinha não existe mais). A minha
única companheira em casa é a Lili. P. passa trancada no quarto sempre, vinte e
cinco horas por dia. Isso não deixou de me incomodar, eu apenas fiquei cansada
de pensar nisso. Eu sei que sou uma péssima madrasta.
O médico me disse que eu preciso de exercícios físicos. A permanência
em casa, a inércia e a falta de mobilidade prejudicam o meu humor, que já não é
aquela coca cola. Preciso me atentar para não estragar tudo aqui em casa. Para não
deixar minhas tristezas atrapalharem minha vida. Na primeira metade do mês eu
sou uma flor, na segunda, eu sou um capeta. Essa é a metade do capeta.
Lili e Aveia – e os doguinhos da minha mãe – são a minha
vida. Mas a Aveia está longe de mim. Graças a Deus eu tenho a Lili. Meu marido,
e todas essas pessoas desta casta superior e arrogante, chamada pai e mãe, ficam
bravos comigo, mas a verdade é que os animais nunca te decepcionam. Os filhos
podem amar os pais, mas a quantidade de merda que nós, filhos, fazemos com
nossos pais seria suficiente para garantir um assento no inferno. Os animais
não são assim. E os domésticos, aqueles que já tiveram seus instintos quase que
destruídos por completo pelo ser humano, ou seja, gato e, principalmente, cão,
não só nunca nos decepcionam como dependem tanto, mas tanto da gente, que
talvez, lá no início da evolução dessas espécies, há uns 30 mil anos, talvez
fosse melhor eles nunca terem se aproximado do Homo sapiens. Bom, aqui estamos
nós. E eu vou fazer de tudo pra cuidar das minhas meninas. Que me dão tanta
alegria. Lili, com seu jeitinho encapetado e carinhoso, e Aveia, a minha
pequena doentinha, que mudou a minha vida para sempre. Sei que ela está muito
bem cuidada. Mas me faz uma falta desgraçadamente enorme.
Às vezes minha vida é um cocô.

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