Escola e hospital


Hoje aconteceram muitas coisas.

Primeiro eu não consegui acordar cedo. Está se tornando uma regra irritante.

Voltei à escola depois de quase um mês. Não senti medo. Bom, medo a gente sente sempre, mas não foi algo que me deixou em pânico.

O problema maior é meu avô. Ele está no hospital de novo. Vai fazer exames. Estamos fazendo tudo particular. Claro, porque se fosse pelo SUS meu avô morria esperando. Sim, eu sei que nesses tempos o SUS mostra como ele faz – e faz – a diferença nesse país. Mas não é perfeito. Na verdade, o problema não é o SUS. É o ser humano. Mas não quero entrar nesse meandro. Quero falar do meu avô, da minha família. A tia está aqui de novo para ajudar a cuidar dele. Como foi há um ano e meio atrás, com a vovó. Naquela ocasião, eu achei que poderia trazer minha família para dentro da minha casa, poder estreitar minha convivência com minhas tias. Hoje eu não acho mais nada disso. E não é por causa do covid. E por causa de mim mesma e da minha ausência de capacidade de conviver com as pessoas. Estar na escola hoje me mostrou isso com mais força. A urgência que eu tenho em arrumar outra coisa que me proporcione meios econômicos de viver e que me possibilite conviver menos com as pessoas. Porque não conviver com os outros simplesmente não dá. E também não dá, para mim, estar no outro extremo, trabalhando numa escola. Puxa vida, eu trabalhando numa escola, onde eu estava com a cabeça? Mas eu amo minha escola. E este trabalho é meu sustento e minha dignidade. Por isso eu preciso sair. Porque não estou a altura dele.

Hoje à tarde eu tive vontade de chorar. Porque a morte está batendo na nossa porta de novo. Meu avô no hospital, fraquinho, minha mãe e minhas tias que não são exatamente jovens arriscando-se, meus tios também, meu pai que já passou dos sessenta... a gente sempre quis algo que chacoalhasse o mundo, mas a gente estava errado. A gente só quer paz. A monotonia da vida é o arroz com feijão da alma. Agora, só estamos a base de barra de cereal. Não quero perder meus pais. Não posso pensar nisso, mas eu penso. E eu penso, agora, em todas as.... quantos já morreram? Eu não sei mais os números oficiais, não sei por que não consigo saber e porque são mentirosos, a gente sabe. Mas eu oro por eles, pelos que perderam a vida, pelos entes queridos que ficaram, pelos que partiram sem saber que estavam doentes. Acima de tudo, eu oro pela burrice humana.

E eu oro pelo meu avô. É claro que eu não quero que ele parta. Mas eu não sei até que ponto ele ainda vive, ou se apenas sobrevive. O motor de arranque dele era a vó. Depois que ela partiu... todo mundo perdeu um pedaço do coração. Ele perdeu quase o coração todo. Se hoje eu me sinto sozinha, melancólica e arruinada, eu me imagino com 82 anos... não sei nem se tenho capacidade de chegar até lá. Só peço à Força superior que tudo sabe e tudo entende que conforte o coração dele. E proteja minha família. E não me deixe chorar mais do que o necessário.

Amanhã volto a escola. O show, pra mim, já acabou faz tempo, mas a gente tem que fingir que ainda dança.


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