O meu Coringa
Ontem eu assisti Coringa. É um bom argumento para começar
porque Coringa está cheio de verdades inconvenientes, cheio de cusparadas nas
pessoas. O Coringa é um vilão clássico da DC Comics conhecido pela sua
crueldade e total ausência de escrúpulos ao matar. E pela primeira vez desde que chegou ao
cinema, o personagem foi apresentado pelo ponto de vista dele. Não é uma
questão de defender o assassino. O problema das pessoas é esse, você só enxerga
um lado. Elas fingem esquecer que se você virar o 6 de cabeça para baixo, ele
vira 9.
O cara está lá, fazendo aquele trabalho merda, quando três
pivetes roubam a placa dele, que sai correndo atas dos meninos. Erro rude. É
encurralado em um beco e apanha dos três. Mas piora. Depois, ele está dentro do trem,
voltando do emprego que perdeu quando tem um de seus nauseantes ataques de
riso. Três filhinhos de famílias de bem de Gothan vão pra cima dele. Seria
outra surra. Mas ele estava armado. A arma que fez ele perder o emprego no
hospital impediu que ele levasse outra surra. Matou os três. Resolveu? Claro que
não. Os vagabundos viraram os mártires da cidade. Você, o que teria feito?
Gritado? Chamado o maquinista? As vezes argumentos são inúteis. Você sempre
está errado quando é a minoria.
Às vezes eu me sinto igual ao Coringa. Igual. A sensação que
eu tenho é auto comiseração mesmo. Eu não sei fazer nada. Cozinho mal, não sei
falar em público, não faço parte daquele clube seleto e dono da verdade
conhecido no mundo como MÃES e PAIS. O meu trabalho é mecânico, qualquer macaco
treinado pode fazer. O que eu escrevo, ninguém está interessado em ler. Os
parcos elogios que recebo se evaporam diante da primeira merda que eu faço. Não
sou engraçada. Não sou interessante. Não sou bonita. Não sou sociável. Não
tenho nenhum dos padrões estabelecidos pela sociedade desde que o ser humano a
inventou. E, sim, esses padrões existem sim, e fingir que eles não existem é,
no mínimo, ingenuidade.
O Coringa (do filme) tem problemas neurológicos. Já me
disseram que eu não tenho. Mas se estiverem todos errados? Não é uma
justificativa para meus erros. É uma explicação pra eu me julgar tão diferente
de todos ao meu redor. Sim, todos tem seus demônios internos. Mas as pessoas ou
lidam com eles ou não ligam para eles. E eu? E se eu, no momento de fúria,
fosse capaz de matar alguém? Todos temos momentos de fúria. Jesus teve. Madre
Teresa tinha o tempo todo. Negar isso também é hipocrisia. Aliás, esse é o
maior defeito do ser humano. A negação.
Negam que todos tem seu lado negro. Negam que a sociedade é
podre. Negam o coronavírus. Negam que é o dinheiro que manda no mundo – e nos
seres humanos. Negam que existe sorte. Até eu tive sorte. Eu nasci na América
do Sul, pude ir para a escola e nunca passei fome. Podia ter nascido no Zaire,
em plena guerra civil, ou numa família judia da Polônia em 1930. Ou também
podia ter nascido filha do Bill Gates. Ou neta do Roberto Marinho. Chame da porra que
quiser, sorte, carma, destino. O Coringa era o filho adotado por uma louca que
permitiu que ele fosse abusado na infância. Bruce Waine foi o garotinho que nasceu
na mansão. Talvez o destino tenha querido se equilibrar fazendo-o ver os pais
serem assassinados de graça. Mas ele não viu a hipocrisia do pai dele, falando
dos meninos de bem que morreram como se fossem da própria família, enquanto se
recusava a responder as cartas que a mãe do Coringa mandava, implorando ajuda.
Também não viu o pai esmurrar o Coringa. Também não viu os três meninos de bem socarem covardemente o Coringa enquanto faziam-no de bobo brincando com sua
mala de roupas. Se você fica imune a uma cena como aquela, quem tem problemas
mentais é você.
As pessoas não veem – ou negam – muitas coisas. A sociedade
pisa em você, te joga lixo, ralha com você quando você tenta ser gentil, ralha
com você quando você é frio. Cospe em você quando você tem um problema sério de
saúde, mas é obrigado a pegar um ônibus, a trabalhar. Veste a pele de ovelha
aparentando te ajudar, quando apenas está tentando cumprir um protocolo social,
evitar um problema para si mesma, e propicia um circo, onde você, imatura e mentalmente
fraca, não só é o palhaço que não consegue – NÃO CONSEGUE – parar de chorar,
como sai como o vilão, ou, no mínimo, como o insano – afinal estava em minoria, já
disse, é fácil bater quando se está com seu bando. Vexames assim a gente não
esquece.
O Coringa não esqueceu seu vexame. Pra que o Robert de Niro
queria ele em seu programa de tv? Pelo mesmo motivo que os apresentadores da
vida real montam seus programas. Audiência, fama, dinheiro. E dai se pra alcançar a audiência ele precisava
pisar naquele loser esquisito? Ele é só um loser esquisito. O tiro que ele
levou ao vivo na tv foi bem merecido. Esse ponto de vista é feio? É imoral?
Foda-se, é meu ponto de vista. O ponto de vista de alguém que também já foi
humilhada e que não é hipócrita de esconder que as vezes tem vontade de dar uns
bons tiros em algumas pessoas. Ninguém vai ler isso aqui. Talvez a minha
terapeuta. Mas é o trabalho dela. Se cortarem a verba da saúde pública, ela não
me ouve mais. Se eu ficar sem medicamento, foda-me eu. Se isso me alucinar a
ponto de eu começar a atirar nas pessoas, ninguém vai olhar meu prontuário e
ver que eu fiquei sem remédio por cortes da verba de saúde. Saúde da cidade que
o pai do Batman prometeu salvar. Não vê o ciclo se fechar?
Não existe bondade. Não existem flores. Não existe otimismo. Aliás, cada dia mais eu odeio os otimistas. Toda vez que eu ouço a palavra otimismo ou qualquer derivada dela, um otimista morre de covid na minha mente. Os otimistas são a gasolina dos coachs. Acham que absolutamente tudo pode ser resolvido com seu otimismo burro. Os otimistas são tão vomitativos em sua insistência no mundo cor de rosa que me fazem abandonar por completo qualquer tentativa de ter pensamentos bons – mesmo eu tendo ciência de que sim, pensamentos bons alimentam boas energias e estas trazem benefícios, acalmam a mente, aumentam a imunidade (é tipo a direita, que, de tanto massacrar a esquerda, faz com que a gente de mais atenção a essa do que o normal) . O Coringa estava radiante quando percebeu o poder que tinha de matar, o poder que tinha de esfregar verdades no Robert de Niro e em toda Gothan City. Até sua postura melhorou. Mas o otimismo faz milagres? Não. O otimismo podia botar comida na mesa do Coringa? Podia diminuir o abismo social de Gothan City? Podia apagar as surras que o pequeno Arthur Fleck levou na infância? NÃO! O otimismo não traz a empatia necessária para perceber que os jovens de bem morreram porque não eram de bem. Não serve pra abrir teus olhos e ver que teu ídolo é tão corrupto quanto o presidente, e que se tivesse no lugar dele faria o mesmo. Não serve para mostrar que é fácil achar a vida maravilhosa e a sociedade e a economia perfeitas quando tens teto, comida, quando faz compras no angeloni e quando trabalha de HOME-OFFICE. Meu cu de home-office! E o favelado? E a criança da periferia que não sabe nem o que é uma escova de dentes, que vê a mãe e o pai transarem depois de usar drogas? Pega teu otimismo e enfia no teu ânus, junto com as lágrimas de todos que morreram nas guerras das ditaduras, do capitalismo, do comunismo, da covid e da gripe espanhola. Dos que morreram apenas porque vida e morte já não faziam diferença. Hoje eu assisti Coringa. E poucas vezes me senti tão representada. E tão triste.
Não existe bondade. Não existem flores. Não existe otimismo. Aliás, cada dia mais eu odeio os otimistas. Toda vez que eu ouço a palavra otimismo ou qualquer derivada dela, um otimista morre de covid na minha mente. Os otimistas são a gasolina dos coachs. Acham que absolutamente tudo pode ser resolvido com seu otimismo burro. Os otimistas são tão vomitativos em sua insistência no mundo cor de rosa que me fazem abandonar por completo qualquer tentativa de ter pensamentos bons – mesmo eu tendo ciência de que sim, pensamentos bons alimentam boas energias e estas trazem benefícios, acalmam a mente, aumentam a imunidade (é tipo a direita, que, de tanto massacrar a esquerda, faz com que a gente de mais atenção a essa do que o normal) . O Coringa estava radiante quando percebeu o poder que tinha de matar, o poder que tinha de esfregar verdades no Robert de Niro e em toda Gothan City. Até sua postura melhorou. Mas o otimismo faz milagres? Não. O otimismo podia botar comida na mesa do Coringa? Podia diminuir o abismo social de Gothan City? Podia apagar as surras que o pequeno Arthur Fleck levou na infância? NÃO! O otimismo não traz a empatia necessária para perceber que os jovens de bem morreram porque não eram de bem. Não serve pra abrir teus olhos e ver que teu ídolo é tão corrupto quanto o presidente, e que se tivesse no lugar dele faria o mesmo. Não serve para mostrar que é fácil achar a vida maravilhosa e a sociedade e a economia perfeitas quando tens teto, comida, quando faz compras no angeloni e quando trabalha de HOME-OFFICE. Meu cu de home-office! E o favelado? E a criança da periferia que não sabe nem o que é uma escova de dentes, que vê a mãe e o pai transarem depois de usar drogas? Pega teu otimismo e enfia no teu ânus, junto com as lágrimas de todos que morreram nas guerras das ditaduras, do capitalismo, do comunismo, da covid e da gripe espanhola. Dos que morreram apenas porque vida e morte já não faziam diferença. Hoje eu assisti Coringa. E poucas vezes me senti tão representada. E tão triste.

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