O que você leva quando morre?

Já disse alguém mais inteligente do que eu que, se a vida não tem altos e baixos, é porque você está morto. Ontem de manhã eu me sentia bem. Pensava em discorrer sobre a brevidade da vida, as coisas realmente importantes, o amor, o que a gente sente e aprende. Às seis da tarde eu tive uma crise de choro. Quando eu tenho uma crise nervosa de choro, eu choro literalmente por horas. Eu só consegui realmente me acalmar depois das dez da noite. A chefe do meu marido está com suspeita de covid.

Também já disse alguém mais inteligente de que ansiedade é estar preso no futuro. Um futuro que você nem sabe como será. Então você cria tudo que te faz mal dentro das sua própria cabeça. A angústia. Como eu já disse, o medo do próprio medo. O será, o se. Para muita gente, pode parecer estranho, mas quando você pensa na angústia de perder seus entes queridos, na dor da doença, do medo, da solidão e da saudade, talvez a ansiedade possa atingir qualquer pessoa, até o monge mais compenetrado.

Eu sou muito influenciável e impactável. A música sempre funcionou para mim, não só como um catalisador de alegria, mas de dor. Ontem também foi assim, e da forma mais inesperada possível. Ainda fascinada com o trabalho que nossa amiga Taylor soltou para o mundo na última sexta-feira, eu me vi ouvindo seu disco sem parar, e quando eu tive minha crise nervosa, tinha uma música dentro da minha cabeça.

A canção seven talvez seja a menos romântica do disco dela. Fala da infância, do passado, num dos meus versos preferidos, pergunta se Ainda há coisas bonitas? Sim, só não me pergunte aonde.



A música age em cada coração de formas diferentes. Todo mundo gosta de música. Hitler gostava. Se há alguém que não gosta de música, é porque não tem alma. Tire de mim minha voz (essa nem fará falta mesmo), minhas pernas, até meus olhos, porque eu posso ler em braille. Mas não tire meus ouvidos. Certamente pela combinação de notas e pela melodia violentamente nostálgica, mas também pela letra, seven me pegou de cheio desde a primeira vez que escutei, segunda feira. Foi como descobrir que ainda se faz música boa no pop internacional. Foi como sentir o folk, o rock e todos os ritmos norte-americanos clássicos vivos nesse mundo mecânico do pop do século XXI. Assim foi comigo. A maioria dos fãs da cantora está preferindo cardigan e exile, que são muito boas. Mas, para mim, não há nada nesse disco – e em nenhum da música internacional recente – como seven.

Ontem, porém, não foi a alegria do presente, mas a dor da verdade, que está canção me trouxe. Meu marido sempre fica bravo comigo quando eu brigo com ele por x, mas falo de y e z, que aconteceram há anos. Ele está certo. Não sei se é com todo mundo, seria bom que fosse, porque seria indício de que eu não sou maluca. Mas eu tenho a tendência auto-destrutiva de puxar todas as coisas ruins – ou, mais precisamente, coisas que me causam dor – quando estou triste, nervosa, desesperada. Não é a mesma coisa. Minha infância não foi triste. Visitar a minha vó, ver minhas tias, brincar com minhas primas, era a alegria da minha vida. Hoje me causa dor. Eu sou feliz com a minha família, mas será que eu posso ter aquela felicidade? Minha vó está morta, minhas primas estão longe, algumas morreram para mim, não sou mais aquela menina que minha família amava. Sou alguém bem estranha que não desperta empatia. Não digo que não me amem mais, é que... não é mais a mesma coisa. Você sabe. Eu sei.

O tempo passou. 

Vêm as contas, o trabalho, o estresse, o covid. A sombra da morte está sempre dentro da lagoa da vida. E minha mente meio aquosa e minha alma meio tumultuada cai nesse oceano de sentimentos, lembranças e sensações. Dores, amores, angústias, e sentimentos que eu nem sei o nome. Nostalgia. Dor. E aí, ouvindo seven, eu sou tragada por tudo isso. A dor de uma saudade de coisas que eu nem sei direito. As lembranças da infância. Minha família. Minha vó. Minha irmã quando era bebê. As primas que eu amava. O jantar beneficente para formatura da oitava série. O dia que conheci a pessoa que eu amo. O dia em que ele disse que me amava. O dia em que ele disse que a maior dor que teve foi perder a mãe, e que não queria me perder como a perdeu. Hoje nem sei se ele me ama mais. Covid, vó, infância, sítio, pinhão na chapa do fogão a lenha, covid, ensino médio, primeiro beijo, primeira vez, covid, mãe, pai, cavalo, sítio, mãos na terra, abraço, Aveia, Lili, covid. Dor. Tudo isso hoje, pra mim, é dor.

Outro sábio disse que não existe caminho para a felicidade, porque a felicidade é o caminho. Acho que foi Gandhi. Eu queria ser uma sábia. Nas minhas histórias sempre tem o velho sábio. Nem sempre é velho, nem sempre é ele. Mas a figura que sabe mais do que os outros apenas porque percebeu que não sabe de nada está sempre lá. E acho que essa é a verdade, talvez a única verdade, que a gente tem. A felicidade é o hoje. Poder dormir mais tarde porque não precisa ir trabalhar, mas se precisa, poder receber o sol maravilhoso no rosto, pisar na geada. Ou ter menos alunos – e menos barulho – na escola porque está chovendo. Tomar banho. Sentar-se depois de limpar a casa e vê-la organizada e cheirosinha. Rir da piada mais besta. Ouvir a música mais maravilhosa que você conhece. Sair do hospital depois de dias de tortura. Respirar direito depois da gripe. Apenas respirar. Comer nega maluca. Assistir youtube. Ler Agatha Christie e se ver louco para descobrir quem é o assassino. Também é poder viajar, conhecer lugares incríveis. Também é tomar aquele café gostoso na padaria. Também é comprar aquele livro que você sabe que vai te levar a lugares incríveis. É tocar quem você ama, brincar com seu bichinho, dormir com ele. É tudo isso e tantas outras coisas ao nosso redor todos os dias que eu ainda me pergunto por que, cada dia mais, nós somos menos felizes. Por que eu não sou feliz? Eu não sei. Mas ao mesmo tempo eu sei.

E eu só queria falar da Lili. Que a Lili é minha companheirinha, minha salvação nesse mundaréu de sentimentos, minha alegria e minha paz. Que minha Aveia também é minha vida. Ela ficou com meus pais, e até hoje eu me culpo. Mas no fim foi bom, meus pais poder ter a minha pequena fofa com eles e eu não fico sozinha, bendito o dia em que a Lili apareceu na casa antiga do meu marido. E ele a alimentou. Hoje ela é minha alegria. Não conseguiria viver sozinha com a P., trancada no quarto, sem querer conversar comigo, e eu sem conseguir chegar perto dela. Ela me odeia e eu sei, mas eu não a odeio. Eu a amo e queria que a gente pudesse se dar bem. Minha salvação é minha Lili, é ela que me mantém de pé quando eu estou literalmente sozinha. Quando eu morrer, vou levar o amor das pessoas e dos bichinhos que eu amo. E espero levar tudo que eu aprendi com meus livros. Cada dia mais eu peço a Deus que quando eu morrer, o meu céu seja uma biblioteca. E eu possa ler com a minha avó. Ou isso ou o inferno. Mas o inferno eu já tenho. Dentro da minha cabeça.


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