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Um passo para frente e três para trás

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Eu sempre me sinto um lixo, mas tem dias que me sinto mais lixo do que outros. É impressionante como meu humor pode ir de feliz, feliz mesmo, a querer me matar em poucos minutos. Hoje é com meu marido, mas já foi com meus pais e sempre vai ser dessa forma. Eu sei que meu marido não me ama mais e se eu tivesse um pingo de decência eu já tinha saído daqui. Por outro lado, é a mesma decência que me mantém no mesmíssimo lugar. Às vezes realmente parece que tá tudo bem. Mas algo sempre acontece. Seja o trabalho, a frieza cada vez maior com que ele me trata, qualquer coisa. Meu marido nunca me pede desculpa. Então para ele a culpa é sempre minha. Mas eu não sou culpada sozinha. Eu não vou assumir uma culpa que não é só minha. Eu tenho meus defeitos e eles me incomodam. Eu não sou a pessoa, a esposa que deveria ser. Mas acho que ele também não é. Eu não tenho para onde ir. Todo o dinheiro que eu tinha eu coloquei nessa casa e no carro. E eu me sinto bem fracassada. Eu estou desde março trabal...

O que você leva quando morre?

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Já disse alguém mais inteligente do que eu que, se a vida não tem altos e baixos, é porque você está morto. Ontem de manhã eu me sentia bem. Pensava em discorrer sobre a brevidade da vida, as coisas realmente importantes, o amor, o que a gente sente e aprende. Às seis da tarde eu tive uma crise de choro. Quando eu tenho uma crise nervosa de choro, eu choro literalmente por horas. Eu só consegui realmente me acalmar depois das dez da noite. A chefe do meu marido está com suspeita de covid. Também já disse alguém mais inteligente de que ansiedade é estar preso no futuro. Um futuro que você nem sabe como será. Então você cria tudo que te faz mal dentro das sua própria cabeça. A angústia. Como eu já disse, o medo do próprio medo. O será, o se . Para muita gente, pode parecer estranho, mas quando você pensa na angústia de perder seus entes queridos, na dor da doença, do medo, da solidão e da saudade, talvez a ansiedade possa atingir qualquer pessoa, até o monge mais compenetrado. Eu so...

Vazio agudo

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Minha terapia acabou. A terapeuta precisou se desligar da clínica. Isso caiu como uma bomba me mim, me senti mal o resto da tarde. Claro que eu compreendo que ela tem sua vida e seus motivos. Mas isso não impede de eu me sentir um cocô. Há dez anos eu fazia terapia, e a terapeuta foi embora da cidade. Depois, a profissional que passou a me atender fez a mesma coisa, por motivos profissionais. No ano passado, eu também só pude ser atendida por cinco meses. Agora, de novo. De novo e de novo e de novo. Será que eu nunca vou conseguir fazer uma terapia decente? Será que sempre estou fadada a perder o profissional que me atende? Foi minha terapeuta que me motivou a começar a escrever nesse blog, e agora nem tenho tanta vontade de continuar. A despeito do período proveitoso de terapia que tive, a terapia é um processo contínuo, e pra mim é pior ainda, eu sou uma pessoa de difícil conversação. É necessário construir a confiança entre o paciente e o profissional, e quando eu consigo finalmente...

Como me tornei bibliófila?

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Não sei.   Eu realmente não sei, mas posso aventar possibilidades. Sempre que eu vejo aqueles vídeos bonitos na internet, ou até na TV, as pessoas têm um mentor, os pais, ou aquele professor que apresentou aquele livro que mudou sua vida e o fez um leitor voraz e apaixonado. Isso até acontece, e pode até acontecer com frequência. Mas não foi comigo. Na minha casa ninguém lia. Mas foi minha mãe que me alfabetizou. Por um motivo que eu realmente não me lembro, eu comecei a amontoar as letras em casa, com relativa facilidade. A minha primeira lembrança de alfabetização são as placas, nas ruas. Toda vez que eu saia eu lia tudo. Nome da loja, placa de sinalização, itinerário do ônibus, qualquer coisa que tivesse na rua. A segunda são as revistinhas da Turma da Mônica. A minha mãe não tinha grana pra comprar gibi para mim toda semana, mas sempre que sobrava algum ela comprava. Elas foram meus primeiros livros. E foi assim que eu entrei na escola um ano antes da idade normal (bons tempo...

O que li em: junho de 2020

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It , S. King Eu sou uma leitora apaixonada e preguiçosa. Acho que comecei a ler It em 2018... tudo bem, It é um livro para ser degustado devagar, não só pelo tamanho, mas pela maneira como o autor desenvolveu seu texto, cheio de flashbacks e com a epopeia de Pennywise e do grupo dos otários toda mastigada. Ainda assim, eu não precisava demorar tanto... vou tentar concluí-lo até agosto, já passei da metade. Outsider , S. King Comecei a ler Outsider toda empolgada, e aí travei... a prisão claramente injusta de Terry Maitland me revolvia os intestinos. Lá estava, no carro usado para sequestrar o pequeno Frank, as digitais de Terry, e seu sêmen no corpo mutilado do menino. Dezenas – literalmente – de testemunhas viram o treinador do time infantil de beisebol da cidade para cima e para baixo, inclusive com Frank. Porém , como dizia Bill Rodges, Porém . No momento da morte de Frank, Terry não só não estava na cidade, como sua participação na palestra do escritor Harlan Coben (se Ste...

Temporal

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Meu tio está no hospital com covid. Aconteceram muitas coisas nos últimos dias. Primeiro que eu me mantive uma semana sem internet. Porque a torre do sinal caiu. Caiu com o temporal. Parece aquela piada que fala que o cavalo morreu de sede porque a fazenda pegou fogo. Ou algo assim, não importa. Faz uma semana (oito dias, mais precisamente) que o ciclone passou por aqui. Não preciso e nem quero entrar em detalhes. O que posso dizer é que estava na escola, na porta da secretaria, olhando em direção às salas de aula, quando vi (ninguém me contou, eu vi) o vento levar, como se fosse papel, as telhas de uma sala de aula. Quando eu vi aquilo achei que a escola ia literalmente cair. Depois pensei na casa da minha mãe, e na minha. Graças ao bom Deus a escola não caiu, nem a minha casa nem a da minha mãe. Apenas algumas goteiras. Uma semana depois, o tempo continua um cocô. Mas pelo menos eu tenho uma casa. Depois de matar umas quatorze pessoas da UNIFIQUE e precisar contratar os serviços ...

Bebês e azulejos

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Estou há uns vinte minutos tentando escrever. Meu marido acabou de ter um chilique com o computador. Este computador. Ele não sabe o que é tentar digitar com uma máquina que nem te responde mais. Na verdade, ele está bravo com a internet, que está uma droga. Só que eu não fiquei brigando com ele, como ele faz comigo. Porque ele pode ficar bravo, pensar e achar o que quiser e eu não? É por essas e outras que eu não quero ter filhos. Só que... aconteceu um acidente. Na verdade, o acidente foi a minha burrice. Minha e dele. Se não fossemos burros o acidente não teria acontecido. Mas o fato é que aconteceu. E talvez eu esteja grávida. O primeiro dia foi horrível. Tomei pílula do dia seguinte pela primeira vez na vida, e sempre com a voz da professora de biologia do Ensino Médio na minha cabeça. Pra mim, pílula do dia seguinte é abortivo . Só que não é bem assim porque você não pode precisar o momento da concepção. Bom, o que importa é que, enquanto eu não posso ter certeza de nada, eu ten...

Escola e hospital

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Hoje aconteceram muitas coisas. Primeiro eu não consegui acordar cedo. Está se tornando uma regra irritante. Voltei à escola depois de quase um mês. Não senti medo. Bom, medo a gente sente sempre, mas não foi algo que me deixou em pânico. O problema maior é meu avô. Ele está no hospital de novo. Vai fazer exames. Estamos fazendo tudo particular. Claro, porque se fosse pelo SUS meu avô morria esperando. Sim, eu sei que nesses tempos o SUS mostra como ele faz – e faz – a diferença nesse país. Mas não é perfeito. Na verdade, o problema não é o SUS. É o ser humano. Mas não quero entrar nesse meandro. Quero falar do meu avô, da minha família. A tia está aqui de novo para ajudar a cuidar dele. Como foi há um ano e meio atrás, com a vovó. Naquela ocasião, eu achei que poderia trazer minha família para dentro da minha casa, poder estreitar minha convivência com minhas tias. Hoje eu não acho mais nada disso. E não é por causa do covid. E por causa de mim mesma e da minha ausência de cap...

O meu Coringa

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Ontem eu assisti Coringa . É um bom argumento para começar porque Coringa está cheio de verdades inconvenientes, cheio de cusparadas nas pessoas. O Coringa é um vilão clássico da DC Comics conhecido pela sua crueldade e total ausência de escrúpulos ao matar.   E pela primeira vez desde que chegou ao cinema, o personagem foi apresentado pelo ponto de vista dele. Não é uma questão de defender o assassino. O problema das pessoas é esse, você só enxerga um lado. Elas fingem esquecer que se você virar o 6 de cabeça para baixo, ele vira 9.  O cara está lá, fazendo aquele trabalho merda, quando três pivetes roubam a placa dele, que sai correndo atas dos meninos. Erro rude. É encurralado em um beco e apanha dos três. Mas piora. Depois, ele está dentro do trem, voltando do emprego que perdeu quando tem um de seus nauseantes ataques de riso. Três filhinhos de famílias de bem de Gothan vão pra cima dele. Seria outra surra. Mas ele estava armado. A arma que fez ele perder o...